Lendo o que dá
Todos os livros que li em abril de 2026
Eu vou parar de fingir surpresa com o tanto de livro que consigo ler mesmo estando com uma rotina apertadíssima. Se eu encaixo a leitura em vários momentos do meu dia — no café da manhã, na academia, no ônibus, antes de dormir —, é claro que acabo lendo bastante.
Este mês li sete livros, todos impecáveis. Acho que só rasgarei elogios nesta retomada.
O beijo no asfalto (Nelson Rodrigues)
Meu primeiro contato com uma peça de Nelson Rodrigues. Antes, só havia lido as crônicas (ou ensaios) do autor, que já provocam o leitor de inúmeras formas. Então já sabia que na peça ele não pegaria leve.
Em O beijo no asfalto, um homem é atropelado e, à beira da morte no meio-fio, é beijado por outro homem. A peça mostra as proporções que o fato toma no Brasil de 1960, com um olhar irônico à estrutura familiar brasileira e à hipocrisia das instituições. Li rapidinho, enquanto esperava um voo. Fiquei embasbacado com o texto de Rodrigues; com certeza é uma leitura que vale muito a pena.
Nossa vingança é o amor (Cristina Peri Rossi)
Essa antologia, lançada pela Editora 34 em 2025, reúne os poemas de Rossi de 1971 a 2024. São poemas selecionados dos outros livros da autora, com tradução e indicação do texto na língua original. A edição é belíssima.
Os poemas de Rossi versam sobre amor, sobre a ditadura e a memória. Os versos livres são como cutucadas em feridas, algumas que eu nem sabia ter — outras que nem tenho, mas que no tecido de palavras sinto como se estivessem em mim, pela primeira vez. Acredito que seja um livro para ser degustado aos poucos, para se ter na cabeceira, por perto na casa, só para pegar e ler um poema uma vez e outra.
Trilogia dos Gêmeos (Ágota Kristoff)
O grande caderno / A prova / A terceira mentira
Eu estava em São Paulo. Depois de um dia conhecendo a cidade, eu e meus amigos chegamos em casa e fomos ler. Em duas horas, li O grande caderno. O livro narra a história de dois irmãos que vão morar com a avó em tempo de guerra — o pai é correspondente, a mãe precisa estruturar melhor a vida para poder criá-los.
Nessa obra, acompanhamos a infância e o início da adolescência desses irmãos. Sua rotina e dedicação para aprender a viver em tempos difíceis, sua forma de elaborar, por meio da linguagem, o luto. A narrativa me deixou em choque inúmeras vezes, sem saber expressar o que estava sentindo. O final, então, é um dos mais impactantes que já li.
Nos dois dias seguintes, precisei ler as continuações. A prova e A terceira mentira continuam acompanhando a história desses irmãos, com narradores impecáveis e um trabalho de linguagem invejável. Agora, um mês depois de ler a trilogia, enquanto escrevo isto e relembro o que li, estou sentindo o mesmo arrepio e angústia que os livros provocaram. São obras que criam um nó e não se preocupam em desatá-lo. Eu leio literatura para isso.
Não posso contar nada sobre os livros dois e três. Qualquer informação seria um spoiler. Só digo que Kristoff é, sem dúvidas, uma das maiores escritoras que já li. A estrutura narrativa dessa trilogia é insuperável.
Um século de Clarice Lispector: Ensaios críticos (Yudith Rosenbaum)
Estou voltando a estudar teoria sobre Clarice Lispector, de olho em meu projeto de doutorado. Essa coletânea de ensaios sobre a obra da autora é de 2021, do ano seguinte a seu centenário. A edição da Fósforo, além de lindíssima, só traz autores extremamente qualificados, com textos muito bem escritos e instigantes. Eu gostei muito, apesar de acreditar que não seja um livro palatável ao leitor médio, por sua grande carga teórica.
Meus ensaios favoritos foram “O infamiliar animismo de Clarice Lispector”, Alexandre Nodari; “As tramas de Laços de família: A palavra em espera” Cleusa Rios P. Passos; e ““Trouxeste a chave?”: O significante enigmático em “Evolução de uma miopia””, de Yudith Rosenbaum.
“Ser transformado por aquilo (e naquilo) que nos vê constitui um risco disseminado pela obra clariciana (risco que é, ao mesmo tempo, um desejo, mesmo que a contragosto, assim como, para Freud, mas de modo radicalmente indiferente, haveria um desejo infantil de semelhança entre o inanimado com o animado, de inexistência de “uma rigorosa diferença entre vivos e não vivos”, que, recalcado, retornaria na forma do efeito de infamiliaridade).”
Perto do coração selvagem (Clarice Lispector)
Ler Clarice é uma experiência única. Reler Clarice é encontrar a si mesmo, outra vez, com um novo olhar. É a terceira vez que eu leio Perto do coração selvagem (minha última leitura havia ocorrido ano passado) e a cada leitura eu percebo uma dimensão diferente da narrativa.
Não consigo aceitar que ela escreveu esse livro aos 22 anos, publicou-o aos 23. A história é de uma profundidade e sensibilidade ímpar, sem dúvida era o prenúncio da maior escritora de língua portuguesa que teríamos. Joana e sua relação com a tia, o pai e Otávio; a diferenciação feminina que é pressuposto para a autoidentificação — o outro e o eu sempre em tensão nas relações, na própria linguagem. Clarice é Clarice.
“Mas era preciso se distrair, pensou com dureza e ironia. Com urgência. Pois não morreria? […] O que fazia com que brilhasse tanto? O tédio… Sim, apesar de tudo havia fogo sob ele, havia fogo mesmo quando representava a morte. Talvez isso fosse o gosto de viver.”
Já leu algum desses livros, ou quer muito ler? Digá lá, vamos conversando.
Obrigado por ler até aqui! Nos vemos logo.




